patrícia, portugal
patriciaisabelricardo@gmail.com

erva daninha

A fome não se mata a dente
recolhe-te.

vida

Vou convidar-te a sair
adeus.

o trilho, pt 2

O mar sempre ao contrário.

fim

Bem vês, meu bem, que não me tenho em grande conta
que sou este naperon encardido
este menir caído
esta fábula sem choro
esta charada, esta mesmo, olha.

Bem vês, meu bem, que estou p'raqui como deus quis,
porque o que deus quer agora é, pois, seguir.

Quando há caminho,
há suor, meu bem, há pés entalados nas bordas da estrada
de terra batida.
Olha, esta mesmo, aqui, ali, além.

Bem vês, meu bem, que vejo mal
é noite cerrada.
Fim.

julgamento e purificação das almas

Vemos-nos do outro lado, onde há luz.
Se não, ao lado da cama, sentados no chão.

trilho

O mar sempre por dentro.

narrativa

Uma janela não tem que estar ao centro, ao centro está um ponto final, obviamente.

diálogo

A solidão é um bicho, claro, solitário.

destino

Foi um voo rasante.

lá do cimo

Caem-me no regaço
mesmo antes de se partirem.

A cair,
a cair,
a cair,
sem destino.

fome

Tudo o que eu mais queria era

ver.

para peões

O engasgo e o tropeço estão no trânsito.
Repete comigo: saberemos (l)imitar esta boleia?

testemunho

Não há mais nada,
só pedras.

Diz.

rugas

São o impasse dos corajosos.
E outros, daqui em diante.

'and it's a long way to sanity but i know you won't show me, anyway...'

Ao Micah P. Hinson.

Qual será o peso de mil homens?
- Não sei, deixa à porta.

natureza morta

Põe a fruta na mesa e lembra-te:
não fujas do nome que sabes de cor.

os sapatos à porta

silêncio.

todas as minhas camisolas

Estou só -
triste.

instruções para (o) quarto escuro

Abre a boca,
apaga a luz.

Não dispares.

a não primavera

Sorri a um dos teus demónios
e diz-lhe a verdade e
nada mais que a verdade:
não nascem flores no coração.
(As que há são de plástico.)

Em teu nome, dele e dos outros que virão.
Ámen.

ouve

Faz sempre marcha atrás, é pelas costas que se vê melhor.

tu sabes

Um poema à Adília Lopes.

As insónias,
as intrigas.
Intrusas,
tu sabes.

incessante

Quero tudo
(para) meu bem, fecha a janela.

vai-se embora

É tudo. E é muito.

à rapariga fantasma

Se tivesse que lhe dizer alguma coisa seria
pedra mármore.

sobre suster a respiração

Ao que parece, o vento não mudou de direcção.

manual de limitações

não posso prometer nada, demorar-me-ei.

diários sobre a tristeza

O corpo que jaz
é um outro
noutro tempo, noutro lugar
num outro

outrora qualquer aqui.

vampiro

Não te esqueças: pela noite sorri melhor.

receita

Quase tanto quanto
chega.

conforto

Que a casa tenha sempre
uma árvore.

pede um desejo

Os meus desejos mais profundos estão no mar.
Como de resto.

sem vertigens

É preciso aprender a caminhar em chão preto novamente.

retrato

O meu tempo todo, sozinho.
O meu abandono a carvão, todo.

pangeia

Às vezes é preciso olhar para trás, de mangas arregaçadas, nem que seja para nos sentarmos à soleira da porta. A espera é passageira, a demora um estado; o continente uma vida inteira.

(às vezes)

roseira

Há sempre quem
nos trespasse o jardim a correr, mas
com júbilo.

o início

o início.