patrícia, portugal
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vinte e três e cinquenta e seis

Está um urso atrás de mim
Números pares são redondos
E a insónia ensina que nem sempre
Nem sempre, repito
O que queremos é o que mais
tememos
Porque temer é uma coisa
morrer por é outra.

bússola

A noite é de quem demora.

jackpot

Já chegaste
Já cegaste
(também já achaste)

- o prémio agora é viver assim.

consagração

É pelos cantos que sobram passos.

estudos do meio

Ninguém nos disse para apontarmos para o céu
Ninguém proferiu as palavras 'por favor'
Até para isso são precisos dois
E eu já não sei contar

Vou dormir
Nada é mais transversal que a noite.

etéreo

A terra treme quando o comboio passa
e se há coisas que não se explicam
são estas

- as que já não cabem sozinhas
por entre as mãos.

tabaco de enrolar

I want it all
Era um autocolante velho
Uma caderneta de cromos
Nunca a vida inteira.

barro

Está um bandolim a chorar no andar debaixo
O comboio desanda
O tambor desata
Há alguém que se desmancha, quase sempre

Gostava de saber escrever a data de hoje
E o meu nome em latim
Para que pudesse ter a certeza
Que há coisas que vale a pena marcar a sangue

É uma jarra
Fiz um arranjo de flores, vês?

restos

Não há tropeço maior que este
Perante um prédio amarelo
E uma bagagem

Passa a fanfarra
Perde-se tempo
E os dedos que às tantas contei por erro
São chávenas à ponta da mesa
Em travão

É uma luta
É um lugar
- vai ali um bando de estorninhos.

s/ título

O que eu quero é uma oliveira, um ninho, um regaço
É em mar alto que se colam as folhas caídas das árvores
É com os pés descalços que se entende isto

Como se lamber alcatrão fosse o mesmo que escrever numa folha suja

Não
- a fragilidade é um alter ego muito bem definido.

elementar

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador
- um beco sem saída.

O que eu quero dizer é que não há nada
mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.

reflexo

Que não sabia que era fundo que se via.

No fundo,
pelo fundo,
ao fundo.

muriel

não é nome de sereia, é nome de código.

neste reino

Com quantas paredes posso contar
só eu sei.

o que é um bom lugar?

O que é um bom lugar? Um bom lugar seria onde se pudesse pousar a cabeça. Assim, por cima dos braços. Um bom lugar é aquele temos, é aquele que tivemos; o futuro, esse, logo se vê. Para quem acredite. Um bom lugar é ele próprio, ou outro qualquer, longe de si. Um bom lugar é um lugar, se o quisermos ser; não temos, sequer, que ser alguma coisa. Pode ser uma janela aberta, um lençol derrangado, uma tigela vazia. Um bom lugar pode ser e não existir, ou então existir tanto e desaparecer por completo; transparente, talvez? Um bom lugar é bom se for lugar, se não for deixa de ser bom, só porque sim. Um bom lugar é lugar e é bom ao mesmo tempo, ou nenhum, também, se nos apetecer; se estiver sol e formos comer um gelado. O que é um bom lugar? Um bom lugar tem tudo para ser um bom lugar, só lhe faltam os violinos, as garças e o pôr-do-sol; a um bom lugar só lhe faltam as concertinas, aquelas, que rompem as águas para nascermos - e olha, nascemos tão bem, em choro.

problemática

Ao homem-foguetão de Elton John.

Empática,
emblemática,
para sempre enigmática,
a lua confirma:

haverá sempre alguém.

erva daninha

A fome não se mata a dente
recolhe-te.

o trilho, pt 2

O mar sempre ao contrário.

fim

Bem vês, meu bem, que não me tenho em grande conta
que sou este naperon encardido
este menir caído
esta fábula sem choro
esta charada, esta mesmo, olha.

Bem vês, meu bem, que estou p'raqui como deus quis,
porque o que deus quer agora é, pois, seguir.

Quando há caminho,
há suor, meu bem, há pés entalados nas bordas da estrada
de terra batida.
Olha, esta mesmo, aqui, ali, além.

Bem vês, meu bem, que vejo mal
é noite cerrada.
Fim.

julgamento e purificação das almas

Vemos-nos do outro lado, onde há luz.
Se não, ao lado da cama, sentados no chão.

trilho

O mar sempre por dentro.

narrativa

Uma janela não tem que estar ao centro, ao centro está um ponto final, obviamente.

destino

Foi um voo rasante.

fome

Tudo o que eu mais queria era

ver.

para peões

O engasgo e o tropeço estão no trânsito.
Repete comigo: saberemos (l)imitar esta boleia?

testemunho

Não há mais nada,
só pedras.

Diz.

'and it's a long way to sanity but i know you won't show me, anyway...'

Ao Micah P. Hinson.

Qual será o peso de mil homens?
- Não sei, deixa à porta.

natureza morta

Põe a fruta na mesa e lembra-te:
não fujas do nome que sabes de cor.

os sapatos à porta

silêncio.

todas as minhas camisolas

Estou só -
triste.

instruções para (o) quarto escuro

Abre a boca,
apaga a luz.

Não dispares.

a não primavera

Sorri a um dos teus demónios
e diz-lhe a verdade e
nada mais que a verdade:
não nascem flores no coração.
(As que há são de plástico.)

Em teu nome, dele e dos outros que virão.
Ámen.

ouve

Faz sempre marcha atrás, é pelas costas que se vê melhor.

tu sabes

Um poema à Adília Lopes.

As insónias,
as intrigas.
Intrusas,
tu sabes.

incessante

Quero tudo
(para) meu bem, fecha a janela.

vai-se embora

É tudo. E é muito.

à rapariga fantasma

Se tivesse que lhe dizer alguma coisa seria
pedra mármore.

sobre suster a respiração

Ao que parece, o vento não mudou de direcção.

manual de limitações

não posso prometer nada, demorar-me-ei.

diários sobre a tristeza

O corpo que jaz
é um outro
noutro tempo, noutro lugar
num outro

outrora qualquer aqui.

vampiro

Não te esqueças: pela noite sorri melhor.

receita

Quase tanto quanto
chega.

conforto

Que a casa tenha sempre
uma árvore.

pede um desejo

Os meus desejos mais profundos estão no mar.
Como de resto.

sem vertigens

É preciso aprender a caminhar em chão preto novamente.

retrato

O meu tempo todo, sozinho.
O meu abandono a carvão, todo.

pangeia

Às vezes é preciso olhar para trás, de mangas arregaçadas, nem que seja para nos sentarmos à soleira da porta. A espera é passageira, a demora um estado; o continente uma vida inteira.

(às vezes)

roseira

Há sempre quem
nos trespasse o jardim a correr, mas
com júbilo.

o início

o início.